Produtividade não é correr mais. É desperdiçar menos.

A eventual redução da jornada traz uma provocação importante para as empresas: quanto do tempo de trabalho é realmente convertido em valor para o negócio?

A discussão sobre a redução da jornada de trabalho ganhou espaço no Brasil. E, junto com ela, uma palavra aparece repetidamente nas conversas entre empresários, executivos e entidades setoriais: produtividade.

A preocupação é compreensível. Se a quantidade de horas disponíveis diminuir, como manter a capacidade de entrega, a qualidade dos produtos e serviços e a sustentabilidade financeira da operação?

Mas existe uma pergunta anterior, que merece atenção:

Será que as empresas conhecem, de fato, quanto valor conseguem gerar em cada hora de trabalho?

A conta da produtividade

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) estima que a redução de 44 para 40 horas semanais, mantendo salários e empregos, diminuiria em aproximadamente 7,8% o total de horas trabalhadas. Para compensar integralmente essa redução, seria necessário um ganho de produtividade por hora entre 8,3% e 8,5%.

O número ajuda a dimensionar o desafio. Mas também pode levar a uma reflexão equivocada: a de que aumentar produtividade significa simplesmente exigir mais velocidade das pessoas.

Não necessariamente.

Produtividade é a relação entre os recursos utilizados e os resultados produzidos. Em uma empresa, isso envolve pessoas, processos, tecnologia, equipamentos, organização, decisões e qualidade da gestão.

Uma equipe pode trabalhar muitas horas e produzir pouco valor quando enfrenta retrabalho, falta de clareza, processos desnecessários ou decisões lentas.

Da mesma forma, uma equipe pode produzir mais valor por hora quando dispõe de prioridades claras, ferramentas adequadas, autonomia e processos bem organizados.

Produtividade não é apenas trabalhar mais depressa. É fazer melhor uso dos recursos disponíveis.

O que as pesquisas nos ensinam?

Um estudo publicado na Nature Human Behaviour, em 2025, analisou 2.896 trabalhadores de 141 organizações em seis países. As empresas participantes passaram por uma preparação que envolveu mudanças na organização do trabalho antes de experimentar uma semana de quatro dias, sem redução salarial. O estudo identificou melhorias em indicadores de burnout, satisfação, saúde mental e saúde física.

O ponto mais relevante para a gestão não é apenas a redução das horas.

É que a experiência envolveu redesenho do trabalho.

No Brasil, um estudo da FGV EAESP sobre a experiência-piloto da semana de quatro dias também destaca a importância de confiança, cooperação, autonomia e reorganização dos processos.

Essas evidências não significam que qualquer empresa obterá os mesmos resultados. Mas ajudam a colocar uma questão no centro da conversa: a forma como o trabalho é organizado pode ser tão importante quanto a quantidade de horas trabalhadas.

Cinco perguntas para começar a revisar a produtividade

1. Onde estamos desperdiçando tempo?

Antes de comprar novas tecnologias ou aumentar a cobrança sobre as equipes, vale mapear a jornada real de trabalho.

Quanto tempo é consumido por reuniões sem decisão?

Quantas atividades precisam ser refeitas?

Quantas aprovações poderiam ser simplificadas?

Quantas tarefas existem apenas porque nunca foram revisadas?

O primeiro ganho de produtividade pode estar justamente em eliminar o que não precisa mais ser feito.

2. Nossas pessoas sabem o que realmente importa?

Uma equipe sem clareza de prioridades pode trabalhar intensamente e, ainda assim, produzir resultados desconectados da estratégia.

É papel da liderança transformar os objetivos do negócio em prioridades compreensíveis, critérios de decisão e responsabilidades claras.

Não basta comunicar metas. É necessário ajudar as pessoas a entenderem o que deve ser feito, por que deve ser feito e como o resultado será acompanhado.

3. Nossos processos ajudam ou dificultam a entrega?

Processos bem desenhados reduzem dúvidas, retrabalho e dependência desnecessária de determinadas pessoas.

Por isso, vale observar o caminho de uma entrega do início ao fim.

Onde ela fica parada?

Quem precisa aprovar?

Qual informação costuma faltar?

Quais etapas poderiam ser eliminadas, integradas ou automatizadas?

Produtividade não se constrói apenas com esforço individual. Ela também é consequência da qualidade do sistema de trabalho.

4. A tecnologia está liberando capacidade ou apenas acelerando tarefas?

A inteligência artificial pode automatizar atividades, apoiar análises e reduzir o tempo gasto em tarefas repetitivas.

Mas o ganho não acontece automaticamente.

Se a tecnologia acelera uma tarefa que gera pouco valor, o resultado pode ser apenas mais velocidade. Se reduz retrabalho, melhora decisões ou libera profissionais para atividades estratégicas, pode gerar uma transformação mais relevante.

A pergunta não é “Onde podemos usar IA?” e sim “Que trabalho pode ser simplificado, eliminado ou redesenhado com o apoio da tecnologia?”

5. Nossas lideranças estão preparadas para conduzir a mudança?

A produtividade também depende da capacidade de liderança.

Líderes precisam estabelecer prioridades, tomar decisões, desenvolver competências, dar feedback, acompanhar resultados e criar condições para que as equipes trabalhem com autonomia e responsabilidade.

Quando tudo depende da aprovação do gestor, a organização fica lenta.

Quando ninguém sabe quem decide, a execução perde ritmo.

Quando a equipe não recebe retorno sobre a qualidade da entrega, os erros se repetem.

Desenvolver líderes, portanto, não é apenas uma iniciativa de comportamento. É uma forma de desenvolver a capacidade de execução do negócio.

O indicador não pode ser apenas horas trabalhadas

Uma empresa que deseja compreender sua produtividade precisa olhar para indicadores que façam sentido para sua operação.

Em um hospital, podem ser relevantes a cobertura das escalas, a disponibilidade de profissionais, o tempo de atendimento e a qualidade assistencial.

Em um restaurante, o tempo de atendimento, o desperdício, a produtividade por turno e a qualidade da experiência do cliente.

Em um supermercado, o fluxo de clientes, a disponibilidade de produtos, a eficiência dos caixas e a organização das equipes.

Em uma empresa de serviços, o prazo de entrega, o retrabalho, a margem por projeto e a satisfação dos clientes.

Não existe um indicador universal de produtividade.

Existe a necessidade de conectar o trabalho realizado ao resultado que o negócio precisa produzir.

A oportunidade por trás do debate

A eventual redução da jornada pode exigir adaptações importantes de empresas e setores. Mas a busca por produtividade não deveria começar apenas quando uma nova obrigação legal entrar em vigor.

Ela já deveria fazer parte da agenda de gestão.

Mapear processos. Rever prioridades. Eliminar desperdícios. Desenvolver competências. Utilizar tecnologia com propósito. Dar clareza às equipes. Preparar lideranças.

Tudo isso contribui para uma empresa mais capaz de executar sua estratégia — independentemente do número de horas previsto na jornada.

A produtividade sustentável não nasce da pressão permanente sobre as pessoas. Nasce de um trabalho melhor organizado, de decisões mais claras e de recursos utilizados com inteligência.

A grande provocação que fazemos a você nesse tema é:

Se a empresa precisasse entregar o mesmo resultado com menos horas disponíveis, o que ela mudaria primeiro?

A resposta pode revelar muito sobre a maturidade da sua gestão quando a pauta é produtividade.


Fontes para aprofundamento

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