A discussão sobre a escala 6×1 ultrapassou o debate trabalhista. Para as empresas, ela coloca em pauta custos, continuidade operacional, organização do trabalho e a capacidade de gerar valor.
A jornada de trabalho está no centro de uma das discussões mais relevantes do ambiente empresarial brasileiro.
A proposta de redução da jornada máxima de 44 para 40 horas semanais, sem redução salarial, reacendeu uma pergunta que interessa diretamente a quem administra um negócio: como preservar a capacidade de entrega, a sustentabilidade financeira e a qualidade da operação diante de uma eventual mudança na jornada?
A resposta não é a mesma para todos os setores. E compreender essas diferenças é essencial.
Uma mudança que envolve mais do que o relógio
A Confederação Nacional da Indústria – CNI estima que os custos anuais com empregados formais poderiam aumentar entre R$ 178,2 bilhões e R$ 267,2 bilhões, dependendo da forma de compensação das horas — por meio de novas contratações ou de horas extras.
Esses números são estimativas da CNI, baseadas em determinadas hipóteses econômicas. Não representam um impacto inevitável para todas as empresas, mas ajudam a dimensionar a preocupação de parte do setor produtivo.
A própria CNI, em sondagem com mais de 1.600 empresas da indústria e da construção, identificou que 97% das empresas consultadas seriam impactadas por uma eventual mudança. Entre as preocupações relatadas estão o aumento dos custos com empregados, a perda de competitividade e a redução do volume produzido.
A discussão, portanto, não é apenas sobre quantas horas serão trabalhadas. É também sobre como as organizações vão estruturar suas operações.
O impacto não será igual para todos
Imagine três empresas: um hospital, um restaurante e um supermercado.
Todas dependem de pessoas para funcionar. Mas a natureza do trabalho, a distribuição da demanda e a necessidade de cobertura são completamente diferentes.
Hospitais: como reduzir horas sem reduzir a cobertura?
Em um hospital, determinados serviços precisam funcionar 24 horas por dia, sete dias por semana. Emergências, unidades de internação, centros cirúrgicos e outros setores dependem de equipes dimensionadas para garantir continuidade e segurança assistencial.
Uma eventual redução da jornada exigiria revisar escalas, dimensionamento, contratos, cobertura de plantões e disponibilidade de profissionais.
O desafio não seria simplesmente retirar algumas horas do expediente. Seria garantir que a redução não comprometa a assistência nem gere uma necessidade de recomposição de equipes incompatível com a realidade financeira da instituição.
O setor hospitalar também discute modelos diferenciados de jornada, como a escala 12×36, e a necessidade de preservar soluções compatíveis com a natureza da atividade.
Para a gestão hospitalar, a pergunta é: como equilibrar descanso, disponibilidade de profissionais, segurança do paciente e sustentabilidade da operação?
Bares e restaurantes: quando o atendimento depende da presença
Em bares e restaurantes, a operação é intensiva em mão de obra e costuma concentrar demanda em horários específicos: almoço, jantar, fins de semana e feriados.
Garçons, cozinheiros, auxiliares, caixas e equipes de limpeza precisam estar disponíveis simultaneamente para que o serviço aconteça.
A Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) estima que uma redução da jornada, mantendo o mesmo funcionamento, poderia elevar em aproximadamente 20% os gastos com pessoal e pressionar os preços ao consumidor. Trata-se de uma projeção da entidade, não de um resultado observado em todas as empresas.
Nesse setor, a discussão envolve escalas, dimensionamento, horários de pico, treinamento, retenção e a possibilidade de reorganizar a operação sem comprometer a experiência do cliente.
Para o empresário do setor, a pergunta é: quais horários, atividades e processos precisam ser redesenhados para que a operação continue sustentável?
Supermercados: uma operação que não pode parar
Supermercados convivem com horários extensos, demanda variável e necessidade de manter áreas como caixas, reposição, açougue, padaria, hortifrúti e atendimento em funcionamento.
A Associação Brasileira de Supermercados (Abras) tem defendido alternativas que preservem a flexibilidade operacional, incluindo a discussão sobre contratação por hora e a possibilidade de organizar cinco dias de trabalho sem necessariamente reduzir o limite semanal de 44 horas.
As discussões não indicam que um único modelo funcionará para todo o varejo. Mas mostram que as alternativas podem ir além da escolha entre 6×1 e 5×2.
Para o gestor de supermercado, a pergunta é: como distribuir melhor as pessoas ao longo da semana e dos horários de maior movimento?
O debate também é sobre a sustentabilidade do trabalho
A preocupação com custos e continuidade operacional precisa ser analisada junto da realidade de quem trabalha. Em especial quando o tema envolve saúde ocupacional.
Uma pesquisa do Instituto Locomotiva, realizada com 1.030 brasileiros em junho de 2026, identificou que 67% dos entrevistados consideram que a escala 6×1 prejudica a saúde mental e 62% avaliam que ela prejudica a saúde física. O levantamento também apontou impactos percebidos sobre o tempo com a família, o sono e o descanso.
Esses resultados expressam a percepção dos trabalhadores e não determinam, sozinhos, qual modelo de jornada deve ser adotado. Mas sinalizam que o desenho do trabalho também tem relação com a sustentabilidade humana das organizações.
Uma empresa que precisa contratar, reter e desenvolver pessoas também precisa considerar atração, absenteísmo, engajamento, qualidade da entrega e capacidade de permanência dos profissionais. Todas essas são variáveis que impactam em custo.
E agora, o que as empresas precisam observar?
A proposta de redução da jornada ainda depende do processo legislativo. Seu formato final, as regras de transição e os efeitos específicos sobre cada atividade precisam ser acompanhados.
Mas as empresas não precisam esperar uma decisão definitiva para começar a compreender sua própria operação.
É possível mapear as jornadas atuais, analisar os horários de maior demanda, identificar atividades críticas, revisar processos e simular cenários.
Também é possível perguntar às lideranças e às equipes onde estão os principais desperdícios de tempo e quais mudanças poderiam melhorar a operação.
A discussão sobre a jornada pode produzir diferentes efeitos conforme o setor, o porte da empresa, a organização dos processos e o grau de dependência de mão de obra.
A questão não é se sua empresa é a favor ou contra a redução.
Seja qual for o formato que vier a ser definido, empresas que conhecem seus processos, seus custos, suas necessidades de pessoas e sua capacidade operacional estarão mais preparadas para tomar decisões.
Afinal, o futuro do trabalho não será construído apenas pela quantidade de horas no relógio.
Será construído também pela forma como as empresas organizam o trabalho e geram valor a partir dele.
Fontes para consulta
- CNI — Sondagem sobre jornadas e escalas de trabalho na indústria: https://www.portaldaindustria.com.br/estatisticas/sondesp-104-jornadas-e-escalas-de-trabalho-na-industria-2026/?utm_source=chatgpt.com
- CNI – Aumento de custo empresarial com redução da jornada de trabalho: https://noticias.portaldaindustria.com.br/noticias/economia/reducao-da-jornada-de-trabalho-pode-aumentar-custo-empresarial-em-ate-r-267-bilhoes-ao-ano/?utm_source=chatgpt.com
- Abrasel — Discussão sobre jornada por horas: https://abrasel.com.br/noticias/noticias/abrasel-ve-proposta-de-jornada-por-horas-alternativa-proibicao-escala-6×1/
- Instituto Locomotiva / Agência Brasil — Pesquisa sobre a percepção dos brasileiros acerca da escala 6×1: https://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2026-09/escala-6×1-67-apontam-que-jornada-piora-saude-mental-diz-pesquisa
- Senado Federal — Tramitação da proposta de redução da jornada: https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2026/09/02/aguardar-fim-da-escala-6×1-passa-na-ccj-e-vai-a-plenario?utm_source=chatgpt.com